04 junho 2014

Muita erudição e pouca porcaria nos fazem artistas incompletos

Por 
HUGO HARRIS
Cineasta, jornalista e professor universitário     
São Paulo - SP
flegetonte77@yahoo.com.br








MUITA ERUDIÇÃO 
E POUCA PORCARIA NOS FAZEM 
ARTISTAS INCOMPLETOS

Livros e filmes são parte fundamental de minha vida. São eles que preenchem minhas horas de lazer e, muitas vezes, também assessoram minha vida profissional. Outro dia, numa aula em que discutia com meus alunos a construção de um roteiro cinematográfico que dois deles queriam fazer, desculpava-me pela referência que trazia a eles: tratava-se do filme “O dilema”, do cineasta americano Ron Howard. É um filme popular que eu, particularmente, não gostei. Mas, naquele dia, enquanto auxiliava meus alunos, considerei pertinente mencionar certo trecho que poderia “iluminar” o caminho que eles queriam percorrer na história que queriam contar.

Esse é um mero exemplo de como qualquer parte de nosso repertório pode em algum momento ser importante para nós. No meio intelectual, principalmente no meio acadêmico, aproximar-se de obras populares, evidentemente de caráter comercial, pode ser tratado como limitação ou, até mesmo, como deficiência. Sim, neste mundo em que vivemos constante patrulha ideológica, quando qualquer opinião que se emite está sujeita a ser debatida e distorcida, também há uma patrulha intelectual. Como se “ser comercial” fosse sinônimo de obra ruim.

Acontece que nas ciências humanas, ainda mais nas artes, qualquer referência é importante. Existem obras que, em seu conjunto, podem ser fracas ou desagradáveis, porém possuem algum elemento que pode ser aproveitado. Vejam o caso do cineasta Quentin Tarantino. Trata-se de um autor com grande conhecimento cinematográfico, desde os filmes do cânone mundial até filmes trash, de arte marcial e independentes. Ele recicla estas referências e transforma em algo único, graças a seu talento e criatividade. Filmes como “Kill Bill” ou o clássico “Pulp Fiction” são ótimos exemplos deste procedimento. Trata-se de releituras de clichês cinematográficos, os quais conseguimos muitas vezes reconhecer, mas com a novidade do tratamento dispensado por Tarantino.

E o conhecimento erudito? Um estudante de arte (seja cinema, literatura, artes plásticas) deve ter em seu repertório certo aprofundamento a respeito de autores fundamentais. Seja um Andy Warhol, Federico Fellini, Machado de Assis, Guimarães Rosa ou Salvador Dali. Qual artista que se preze não conhece a Guernica ou não teve a possibilidade de ler “Em busca do tempo perdido”? Como que um cineasta pretende trabalhar o ritmo de um filme sem nunca ter assistido a “O encouraçado Potemkin”? Como alguém pretende trabalhar as cores se nunca apreciou um quadro de Monet?

Ser um profissional, em primeiro lugar, requer isto que já foi dito nas linhas anteriores: repertório. Mas devemos deixar de lado o preconceito e considerar que tudo pode ser repertório, mesmo que não percebamos isso logo que apreciamos a obra. Leia Harry Potter, veja filmes bregas, escute músicas populares. Mas não deixe de ir a uma boa exposição, de assistir a um espetáculo de dança ou ler revistas literárias. 

Poderíamos, aqui, fazer uma analogia com a famosa frase do filme “O iluminado”, de Stanley Kubrick: “All work and no play makes Jack a dull boy”. Este provérbio traz em si o conselho de que se deve mesclar trabalho e diversão para ser completo, o que inspirou a criação do título deste texto.

Assim, não deixe de estimular o seu lado popular, de ver aquilo que muitos chamam de “porcarias”. Elas podem ser o estímulo que você precisava para ter um algo a mais. Às vezes, o excesso de erudição trava a nossa criatividade. Amplie seus horizontes, mescle seus conhecimentos, veja as tranqueiras e seja um profissional completo. 



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