04 julho 2014

Violência

Por 
CARLOS AUGUSTO GALVÃO
Psiquiatra      
São Paulo - SP
carlosafgalvao@terra.com.br








VIOLÊNCIA

Quando se fala em violência, vem sempre a ideia do sofrimento físico que ela gera, do mais fraco sendo subjugado pelo mais forte, mas nem sempre a violência é física. Hoje é muito difícil definirmos esta palavra, embora ela faça parte de nosso dia a dia. Nos primórdios da humanidade, o homem, que só sobreviveu até hoje por ser um animal social, tinha como meta chefiar grupamentos e, para isso, ser o mais forte, e assim impor-se na chefia desse grupo, promovendo sofrimento físico aos que se indispusessem contra essa liderança; mas o próprio desenvolvimento social promoveu leis, que foram as maiores invenções para a harmonia dos cidadãos, ficando assim a violência ligada aos castigos para quem se rebelasse ou desobedecesse essas leis. 

As primeiras que aparecem na história são: o Código de Hamurabi (olho por olho, dente por dente) e a tábua judaica dos 10 mandamentos. Todos os animais praticam violência com seus iguais, geralmente em disputas sexuais (briga de machos para ver quem concebe a fêmea), ou disputa por alimentos, principalmente, em épocas de escassez. No ser humano também se observa esses tipos de disputa, mas seus cérebros trazem funções que estimulam a violência por outros motivos, por exemplo: a passionalidade, a ambição e a revolta. Essas “fraquezas” humanas distorcem o sentido que temos de violência, pois a partir daí podemos observar outros tipos de agressões, não físicas, mas que podem ser classificadas de violência.

Há pouco, observamos na televisão um grupo de vândalos que destruiu uma concessionária de carros de luxo, e em poucos minutos causaram um prejuízo de milhões de reais; violência, mas sem nenhuma lesão orgânica em quem quer que seja, mas nem por isso deixa de ser uma grande violência, pois alguém foi lesionado em seus bens. Pura rebeldia. 

Um corrupto que, por exemplo, rouba a merenda escolar das crianças, não está espancando-as, mas não deixa de ser uma imensa violência, pois seu ato lesionou outros seres humanos. Ambição desmedida. Um marido traído que mata sua mulher e o amante clandestino dela, também pratica a violência que tem a passionalidade por gênese. 



A violência acompanha o homem em seu desenvolvimento na crosta terrestre. Hoje sabemos que há dezenas de milênios coexistiram duas espécies humanas: o Homo sapiens, originário da Africa, que ao se expandir pela Europa, lá encontrou a outra espécie: o Homo neandertalis. Conforme avançava o Homo sapiens, os neandertalis iam desaparecendo, sendo que seus mais recentes fósseis foram encontrados no “fim” da Europa, a península Ibérica. Estudos recentes mostram que durante o avanço do Homo sapiens, ele foi interagindo com os neandertalis, pois a genética do homem moderno inclui um considerável percentual do genoma neandertalis. 

Não dá para se pensar numa interação romântica das  espécies, e a imagem que mais se aproxima é o ícone da idade da pedra, o Homo sapiens arrastando pelos cabelos, em direção à sua caverna, um exemplar feminino Neandertal. 

Augusto Comte, em seu ensaio sobre a teoria das funções cerebrais, diz que o cérebro humano possui funções altruísticas (que regem a relação do indivíduo com seu meio, favorecendo este meio) e funções egoísticas (que regem a relação do indivíduo com o meio, mas favorecendo a si próprio). Há equilíbrio entre essas funções, desde que sejam desenvolvidas em ordem (família, escola, amparo social) promovendo, assim, o progresso da sociedade onde vive. O desequilíbrio entre esses dois grupos de funções é de se imaginar que seja a principal causa de reações violentas no ser humano.

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