05 agosto 2014

De todos os silêncios que queremos calar

Por 
VICTOR EUSTÁQUIO
Estudos Africanos PhD companheiro - Escritor
Torres Vedras - Portugal
vic.eustaquio@gmail.com








DE TODOS OS SILÊNCIOS QUE QUEREMOS CALAR 

Dizem que com o tempo aprendemos a mitigar a dor que se sente perante a morte de alguém que amamos. Mas se a morte nos envelhece e acelera o tempo, faz sentido gastar o tempo que nos resta, cada vez menor, para aprendermos o que inelutavelmente recusaremos sempre a aprender? É que a dor não se extingue, mas o tempo há de acabar.

Dizem que há certas coisas que são da esfera privada e que o melhor é calá-las, não se vá contagiar os demais com dores alheias. Mas se a dor é comum, porque a ela ninguém escapa, de uma forma ou de outra, mais tarde ou mais cedo, faz sentido evocar o pundonor para tamanha condenação que a todos toca?

Dizem que são misteriosos os desígnios de quem, porventura, estará algures a decidir estas coisas. Por mim, não vejo mistério nenhum. Apenas dor. Individual e coletiva. A minha dor como a dor de todos os outros. Sobretudo porque não creio que haja paraísos que cheguem para tantos mortos. E tantas dores.

Tenho saudades do tempo em que não pensava nisto porque, em boa verdade, começo a suspeitar de que, com o tempo, o que aprendemos não é a mitigar a dor; mas a ampliá-la. Pela simples razão de que, na entrega ao combate em busca de paliativos, estamos apenas a aproximar-nos cada vez mais da percepção atroz da nossa condição de finitude.

A minha moral não é uma lição. Nem um apelo. Nem um desabafo. Nem um grito de pânico. É tão somente uma moral, a minha, que não serve para nada. Nem para os que dela comungam.

Se concordarias com isto? Claro que não! Porias as mãos à cabeça por tanta incredulidade. Pelo desânimo de descobrires que nada aprendi do que me quiseste ensinar. Contudo, deixaste de cá estar para mo dizer. E eu cá continuo, sem igualmente poder dizer-te que lamento imenso. O quê ao certo, não sei. Mas lamento.

Às vezes, no longo solilóquio em que descubro estar sem saber quando começou, julgo que não decidiste partir por vontade própria. Outras vezes, penso o contrário. Às vezes, conto os dias desde que vi o teu último olhar já embaciado. Sim, porque eu estava lá, embora provavelmente não soubesses. Ou preferisses não saber. Outras vezes, recuso-me a fazer contas. Porque tento afastar da memória aquele dia, aquela hora, aquele minuto, aquele exato segundo. É um pensamento intrusivo, recorrente, mas também ambíguo. Tanto me corrói como me sustenta. É que, pelo menos naquele momento, não estive ausente. Não me demiti de estar presente no princípio deste silêncio que se prolongará até à eternidade. Apesar de ser enorme a vontade de o calar.

Dizem que com o tempo aprendemos a silenciar a dor. Que acabamos por aceitar que não há tempo para tanto desperdício de tempo. Mas como se silencia uma coisa que já é silenciosa? Quanto tempo é necessário, do tempo que não temos? E por que é que dizem o que dizem, do tanto que dizem, quando não há nada para dizer? Se calhar, é pela mesma razão que eu falo. E falo. Embora nada diga.
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