05 agosto 2014

Muitos não são convidados para o baile

Por 
HELIO MOREIRA
Médico e escritor
Goiânia - GO
drhmoreira@gmail.com








MUITOS NÃO SÃO CONVIDADOS PARA O BAILE

Não faz muito tempo a nossa querida Professora, historiadora e acadêmica da AFLAG (Academia Feminina de Letras Artes de Goiás) e, com muita honra para mim, minha confreira no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás Profa. Lena Castelo Branco brindou, mais uma vez, os leitores do Diário da Manhã com uma bela crônica que intitulou Batons & Brioches.

Se ela fosse reescrevê-la, teria muito mais argumentos para comparar a nossa atual situação política com a do tempo de Maria Antonieta, tendo em vista o mais novo escândalo, o das passagens aéreas.Naquela época, Maria Antonieta não entendia por que os famintos, na antevéspera da tomada da Bastilha, estavam rodeando seu jardim; eles querem pães, Majestade, ter-lhe-ia informado a camareira. Se não tem pão, comam brioches, teria dito a desinformada Rainha.

Da mesma maneira, alguns políticos não conseguem enxergar que a maioria da população que eles representam reclamam por soluções de alguns problemas, até pontuais, para não sermos genéricos, que poderiam ser resolvidos com a simples economia de algumas passagens aéreas utilizadas para seus familiares e amigos. Não querem enxergar! Um dia o povo cansa!


Não costumo, por índole, entrar na discussão da política, porém, como modesto integrante da elite pensante e, até com algum poder de formar opinião, não gostaria que, no futuro, algum crítico literário, se é que haveria algum que se preocupasse com minha obra literária, nominasse-me alienado.

Göethe, quase que uma unanimidade pela criação de seus quarenta e cinco volumes de poemas, romances, crítica, filosofia, ciências naturais, enfim de tudo o que existe entre o céu e a terra, mereceu do famoso crítico literário Otto Maria Carpeaux, o seguinte comentário, que embora não concorde por inteiro, eu o transcrevo:
“Göethe, espírito apolítico, egoísta, não compreendeu o maior acontecimento do seu tempo, a Revolução Francesa. Contra ela, colocou-se ao lado das forças feudais, assim traiu o povo, do qual proviera, traiu a humanidade, cujos sofrimentos absolutamente não o preocupavam”.

Parece que o poder embriaga o agente político e, até por uma questão de justiça, há que se dizer que não é de agora esta espécie de torpor das alturas e que, também, não são todos os atingidos. Alguns são incorruptíveis, outros, como o meu amigo Hesse Luiz Pereira, são incorruptíveis e exageradamente honestos e ao assumirem a função que lhes foi confiada, imbuem-se de uma missão transcendente ao seu período de mandato e procuram “cavar masmorras ao vicio e construir templos à virtude”.

Outro dia, lendo o agradável livro “O baile da despedida” do inesquecível escritor Josué Montelo, lembrei-me que tive acesso, há algum tempo, ao opúsculo intitulado “Ilha Fiscal”, mandado publicar pela Marinha Brasileira em 1963.
O livro de Josué é um romance onde o autor coloca uma personagem de nome Catarina para contar sobre a sua presença naquele baile, o baile mais famoso da História do Brasil e que teve, como cenário, justamente a citada Ilha Fiscal.

Como o livro “O baile da despedida” não entra em detalhes sobre a festa propriamente dita, gostaria de passar aos meus leitores algumas curiosidades, colhidas daquele opúsculo.


Antes de dar algumas bisbilhotadas na festa e ferir com o aguilhão da curiosidade alguns interessados, gostaria de aproveitar a oportunidade para evidenciar, mais uma vez, a falta de sensatez de alguns governantes.

O Baile, uma homenagem à oficialidade de um navio Chileno, em visita ao Brasil, ocorreu no dia 9 de novembro de 1889, portanto menos de uma semana antes do acontecimento que iria mudar, para sempre, a história do Brasil.

Segundo os historiadores, por aquela época, a tensão política e militar havia atingido o mais alto grau de efervescência, avolumavam-se atos de indisciplina militar, Ruy Barbosa e Quintino Bocaiúva pregavam, abertamente na imprensa, a instauração da república; no entanto o governo se preocupava, como de resto toda a elite política e social da Corte, exclusivamente, com a organização do baile.

Era um sábado de calor sufocante, nos lares e nos salões, a modista e o cabeleireiro vestiam e penteavam as damas; alguns vestidos precisavam ser apertados, outros, alargados; alguns cabelos precisavam ser reformados porque haviam sido arranjados muito cedo (havia maior procura que oferta de profissionais). Miravam-se no espelho à procura da silhueta que não lhes pertencia; o ruge remoça a fisionomia, o pó de arroz perfuma o olfato, desviando o olhar das possíveis rugas.


Ao anoitecer, carros e mais carros, puxados por garbosos cavalos, começam a chegar ao embarcadouro Pharoux, descarregando as senhoras vistosas, cobertas por capas riquíssimas e respirando esnobismo em cada movimento e sempre observadas por uma multidão de gente que se aglomerou nas imediações para ver o desfile claudicante de sapatos no tapete das ilusões, formado pelos paralelepípedos desnivelados.

Do cais se avistava a Ilha, toda iluminada e iluminando todo o litoral à custa de um foco elétrico localizado na torre principal do edifício do baile, as embarcações iam e voltavam, sempre apinhadas de convidados.

A família Imperial, tendo à frente o Imperador Dom Pedro II, embarcou às nove horas; na ilha foram recebidos pelos Membros do Ministério, capitaneados pelo Visconde de Ouro Preto, com direito ao hino nacional tocado pela banda de música. Houve dança nos seis salões que foram adrede preparados, inclusive, atapetados de vermelho. 

O Jantar, Oh, o jantar! Não poderei, por falta de espaço, descrevê-lo em detalhes, porém, passo-lhes um resumo do informe da Confeitaria Pascoal, encarregada do serviço: 

Havia 150 copeiros, 60 trinchadores; passaram pela copa 12 mil garrafas de vinho, licores, champanhe, cerveja, águas gasosas, 12 mil sorvetes, 12 mil taças de punch, 500 pratos de doces variados. Na cozinha havia 40 cozinheiros e 50 ajudantes e foram servidos 18 pavões, 80 perus, 300 galinhas, 350 frangos, 10 mil sanduíches, 18 mil frituras, mil caças, 50 peixes, 100 línguas, 50 mayonnaises e 25 cabeças de porco recheadas.

A história sempre repete os fatos e os homens não querem ver!
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