05 agosto 2014

Breve história do psicodrama no Brasil

Por 
SÉRGIO PERAZZO
Psicodramatista e escritor      
São Paulo - SP
serzzo@terra.com.br








BREVE HISTÓRIA DO PSICODRAMA NO BRASIL

Um ponto de vista
O psicodrama foi trazido para o Brasil no fim da década de sessenta por alguns pioneiros, encantando profissionais da área de psiquiatria, psicologia e, consequentemente, psicoterapia e educação. Não só a força da sua técnica, como a possibilidade de sua aplicação menos elitizada em trabalhos com grupos, tanto em sua vertente clínica, quanto educacional e comunitária, acenavam com promissoras possibilidades num país que vivia sob forte repressão de uma ditadura militar que subjugou o país por mais de 20 anos.

Foi nesse terreno, a partir dos pioneiros já mencionados e contatos feitos em congressos, que um grupo de profissionais contratou Rojas-Bermudez, um psicodramatista colombiano radicado na Argentina, para iniciar, regularmente, a formação psicodramática de profissionais brasileiros em São Paulo. Assim se constituíram os primeiros grupos de psicodrama no Brasil, que formaram os primeiros professores brasileiros de psicodrama.

Entre estes primeiros psicodramatistas brasileiros, era possível encontrar vários profissionais destacados e já muito conhecidos, como alguns psicoterapeutas reconhecidos por seu trabalho clínico, chefes de serviços de psiquiatria e de psicologia, alguns professores universitários etc, o que, desde o início, deu peso e credibilidade ao psicodrama no Brasil.

Em 1970, este grupo de psicodramatistas organizou no Museu de Arte de São Paulo (MASP) um congresso internacional de psicodrama, em que foram realizados diversos psicodramas públicos, ao ar livre, num espaço arquitetônico do MASP diretamente aberto para a Avenida Paulista, à vista de todos.


Esse congresso mereceu ampla divulgação pela mídia e ampla pressão dos órgãos de governo, incluindo uma tentativa de censura oficial. O próprio Moreno foi convidado e era esperado, mas, acabou desistindo de comparecer, em parte também por não concordar com a orientação geral de Rojas-Bermudez, fato que só passou a ser confirmado com mais clareza muitos anos depois (1978).

Esse congresso marcou uma dissidência do movimento psicodramático brasileiro, que deu origem às duas primeiras instituições de formação de psicodrama, ambas em São Paulo: a Sociedade de Psicodrama de São Paulo (SOPSP) e a Associação Brasileira de Psicodrama e Sociodrama (ABPS), ambas existentes e ativas até hoje.

A ABPS seguiu em frente fiel à linha bermudiana durante muitos anos. A SOPSP trouxe Dalmiro Bustos, argentino, no início dos anos 70, refazendo suas diretrizes teóricas e técnicas.

Durante vários anos, as duas sociedades se comportavam como compartimentos estanques e seus alunos acabavam construindo preconceitos contra os membros da outra sociedade, mesmo sem conhecê-los, só pelo que ouviam falar, uma etapa sofrida no desenvolvimento do psicodrama brasileiro.

Em 1977, foi realizado em Curitiba um congresso de psiquiatria e higiene mental. Nessa época, alguns profissionais da SOPSP davam formação psicodramática em fins de semana para profissionais do Paraná, Bahia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, enquanto psicodramatistas da ABPS faziam o mesmo no interior de São Paulo e Ceará.

Vários destes alunos de psicodrama de Curitiba-PR integravam a Comissão Organizadora deste congresso de psiquiatria e por isso tiveram peso e influência para incluir no programa diversos trabalhos teóricos e mesas-redondas de psicodrama e, principalmente, várias vivências (workshops) de psicodrama dirigidas por professores-supervisores tanto da SOPSP quanto da ABPS, além de dois professores estrangeiros, Dalmiro Bustos e Carlos Calvente.

O resultado desta forma de organização foi a reunião de alunos da ABPS e da SOPSP e de alunos de psicodrama de cidades diferentes, compartilhando as mesmas atividades psicodramáticas prático-vivenciais e teóricas, além das atividades sociais em que todos cantavam e dançavam juntos.

Este foi o marco que deflagrou  a convivência pacífica entre todos e iniciou um movimento de respeito das diferenças existentes entre as diversas correntes.

O resultado disto tudo foi a fundação no ano seguinte (1978) da Federação Brasileira de Psicodrama (FEBRAP), a realização do 1.º Congresso Brasileiro de Psicodrama (1978) e a fundação da Revista da FEBRAP, 1978 (hoje Revista Brasileira de Psicodrama).


Os primeiros congressos brasileiros de psicodrama, realizados a cada 2 anos, foram fechados apenas para psicodramatistas brasileiros. Neles vivemos muitos confrontos duros tanto no plano pessoal como no das divergências teóricas e técnicas. No entanto, vivemos esse tempo de tempestades juntos. 

Quando tudo isso passou e os psicodramatistas brasileiros já conseguiam uma convivência de consideração e respeito entre eles, apesar das diferenças, os congressos brasileiros passaram a ser abertos para os psicodramatistas estrangeiros e até para um público de universitários.

O que resultou disso tudo? Hoje o Brasil tem, aproximadamente, 3.000 psicodramatistas espalhados de norte a sul do país, distribuídos em mais de 40 instituições que dão formação de psicodrama, algumas em parceria com universidades. Algumas universidades brasileiras, em suas faculdades de psicologia, incluem no seu programa de graduação a matéria psicodrama. Até hoje foram realizados no Brasil 13 congressos brasileiros e 3 internacionais de psicodrama, incluindo o IIº Ibero-Americano, além de incontáveis encontros, jornadas e outros eventos psicodramáticos. A média de participantes nestes congressos é de 700 pessoas. Nos últimos 25 anos, os psicodramatistas brasileiros publicaram aproximadamente 100 livros e 1.000 artigos de psicodrama, além de inúmeras teses de mestrado e de doutorado em universidades com temas de psicodrama. Toda esta produção científica possibilitou a edição de uma coleção de livros de psicodrama por uma editora brasileira. 

São muitas as contribuições teóricas brasileiras originais e grande a expansão do movimento psicodramático, de que são exemplos o grande crescimento do psicodrama não clínico e educacional, do movimento cada vez mais forte do teatro espontâneo e da aplicação comunitária e em empresas do psicodrama, como o psicodrama público realizado em vários pontos da cidade de São Paulo e dirigido por muitos psicodramatistas simultaneamente, patrocinado pela própria prefeitura, quando da sua instalação em começo de governo. Aliás, a abertura do congresso ibero-americano realizado no Brasil foi feita pelo próprio ministro da saúde da ocasião.


Sem sombra de dúvidas o Brasil se constitui hoje como um país em que o psicodrama veio para ficar e permanecer para o futuro. Se há uma lição a tirar de tudo isso é o processo que os brasileiros se dispuseram a viver, que foi o de aceitar o desafio dos confrontos como caminho do compartilhamento possível, da perseverança e do encontro, apesar das diferenças, o único que resulta em construção, espírito que o Brasil procura levar para as mãos e os corações dos irmãos ibero-americanos.

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Jacob Levi Moreno

Entendendo o Psicodrama
O Psicodrama é uma linha da Psicologia que usa fundamentos do Teatro do Improviso como método de terapia. Jacob Levi Moreno, seu criador, o define como a ciência que explora a verdade por meios dramáticos. Ao contrário das linhas mais comuns, aqui as informações e sentimentos são obtidos através do desempenho de papéis, agindo livremente e comunicando, inclusive, através da expressão corporal. Nas sessões, o paciente liberta sua espontaneidade e expõe seus diálogos de forma leve e orgânica. Jacob acreditava que para um paciente, ”seria mais eficiente e mais produtivo se representasse seus sintomas, como um ator numa peça, em vez de reprimi-los ou resolvê-los.”
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Uma abordagem
Prova de alfaiate - 
a vida resgatada através do luto

Tinha quase dois metros de altura. E naquela altura da vida que excede os dois metros, resolveu comprar um jazigo de família num cemitério-jardim, dos muitos que existem em São Paulo. Um jazigo perpétuo.
Com o corretor, à beira do túmulo aberto, três andares para baixo, três  nichos de cada lado, duvidou, num golpe de vista:

— Não dá para o meu tamanho.

Dá, não dá, dá, não dá, até que o corretor se impacientou:

— Por que não experimenta, então?

Ele não teve dúvidas. De paletó e gravata, desceu e não  se  fez de rogado. Deitou-se muito à vontade dentro de uma das sepulturas como quem prova um terno no alfaiate: 

— Não é que você tem razão? Cabe direitinho.

E ali mesmo fechou negócio. 

Fora o colorido que tento dar a este relato, a cena descrita aconteceu de fato e revela um lado prático de lidar com a morte e, mais especificamente, com a própria morte. Aliás, sempre me surpreendo com um arrepio de horror ao imaginar o que sente um ator quando é obrigado a se deitar num caixão, fingindo-se de morto, por imposição hiper-realista da peça, filme, novela de TV ou personagem. 

Um paciente de sessenta anos me contava que nos últimos dois anos foi submetido a uma cirurgia de próstata para retirar um tumor maligno, mais duas de catarata, bilateral, uma outra de um câncer de pele, três biópsias e, de quebra, ainda  teve duas crises de gota, uma outra decorrente de um cálculo renal, uma dermatite, uma gastrite e uma extrassistolia periódica. Fora o resmungo diário da 2.ª lombar e um certo excesso de peso. Dizia-me: 

— Cada vez que vou ao médico, volto sem um pedaço. Nós dois estamos entrando na idade da fadiga dos materiais, só para usar um velho termo da engenharia.

Em dois belíssimos filmes relativamente recentes, podemos comparar duas maneiras muito distintas de lidar com a morte: “Sob a areia” (Sous le sable), de François Ozon e “O quarto do filho” (La stanza del figlio), de Nanni Moretti. A negação insistente e recalcitrante da morte, contra todas as evidências e a elaboração diária, minuciosa e dolorosa do luto é o que se opõe no confronto de conteúdo destas duas películas. 
Bergman cria, em “Fany e Alexandre”, um clima de morte impressionante numa cena com câmera fixa, em que apenas a movimentação dos  personagens é capaz de nos transmitir a dor, a solenidade do momento de morrer e a desorientação que, em diferentes graus, toma conta de todos. A enfermeira que sai para esvaziar a bacia, o padre que chega com o vidrinho de água-benta, o tio que passa oferecendo o lenço, a mãe que se encurva num prenúncio de choro, uma sucessão de gestos e expressões que constrói indelevelmente um conceito, como que o salvando no disco rígido de nossa memória. Ele consegue nos colocar no papel do menino que se aproxima do pai moribundo e que estrutura dentro de si uma compreensão da morte a partir apenas desta movimentação das pessoas, gerando um clima específico inesquecível, configurando um conjunto de percepções sobre o que define a morte e o morrer. 

Sendo assim, com esses exemplos, a naturalidade ou a aparente naturalidade no lidar com a morte, cujo entendimento é configurado na história da construção de nossas percepções frente a ela e dos sentimentos que nos provocam e envolvem, é que vai permitir a sua elaboração no período de luto, com maior ou menor ajuda, para superar a nossa tendência natural de negá-la e ocultá-la. 

Somos todos personagens do mesmo drama. Somos todos protagonistas do mesmo luto. 
A mulher de “Sob a Areia”, diante do desaparecimento do seu marido, nega todas as evidências de sua morte, inclusive o indiscutível exame de DNA de um corpo que é encontrado no mar. Refere-se a ele sempre no presente e se recusa a conjugar o verbo no passado sempre que  ele é o sujeito. O escritório vazio do marido é a sua corporificação ausente. 

O casal que perde o filho, também afogado, em “O quarto do filho”, vive em chaga aberta tentando sobreviver no meio de um mar diário de culpas. O quarto do filho é a sua ausentificação presente. 
São bem conhecidos os estudos de Philippe Ariès sobre o comportamento do homem ocidental diante da morte através da história. Se ao homem antigo era dada a oportunidade de esperar a morte no leito, cercada de rituais que a transmutavam numa cerimônia pública e organizada, as transformações que esta atitude sofreu no século XX até hoje tem seu peso maior pela velocidade com que ocorreram do que pelo próprio conteúdo destas transformações. 

É como um homem de oitenta anos tentar absorver em três dias toda a massa de informações, para o bem ou para o mal, veiculada pela internet e suas implicações na vida humana deste planeta. 

Desta forma, os 50 milhões de civis e os 15 milhões de militares mortos na 2ª Guerra Mundial, se esfumaçam em mero detalhe estatístico, cujo horror personalizado é impossível de ser avaliado e digerido. E assim, os da Guerra dos Bôers, da Russo-Japonesa, da Nipo-Coreana, da Revolução Chinesa, da Revolução Russa, da 1.ª Guerra Mundial, da Sino-Japonesa, da Guerra Civil Espanhola, da Coreia, do Vietnã, de Biafra, da Bósnia, do Expurgo Soviético de Stalin, do Expurgo da Revolução Cultural de Mao Tsé-tung, dos massacres repetidos de vários países famintos africanos, do Laos, do Camboja, das Malvinas, do Iraque, do Afeganistão, da invasão da Hungria e da Checoslováquia, da guerra não declarada no Oriente Médio, da explosão do terrorismo internacional em suas múltiplas formas, dos homens-bombas às torres gêmeas, da caricata invasão de Granada pelos Estados Unidos, das baixas urbanas do narcotráfico etc., etc., etc., tudo ocorrido no espaço de um século. Enfim, um mundo em guerra permanente. Não mais a 1.ª, 2.ª ou 3.ª Mundial com finalizações hiroshimianas ou nagazakianas. Kafkianas ou brechtianas, talvez? 
Não é pois de estranhar que, neste cenário violento de filme classe C, não tenhamos tempo sequer de enterrar os nossos mortos.

O apelo da mídia ao consumo desenfreado a que todos estamos sujeitos, as relações de trabalho cada vez mais perversas e escravizadoras do homem robotizando-  -o, contribuem para lançar o amor (que é isso?) numa categoria relacional (?) sem troca e sem consistência, condenando cada um de nós a uma morte em vida, à solidão sem retorno, ao embrutecimento de nossa sensibilidade. 

É neste panorama que, modestamente, somos chamados a intervir no plano individual, mesmo que grupal, restando-nos quase a tarefa de recolher os cacos de tal estilhaçamento da vida. 

Que fazer? É possível resgatar a vida através de um luto que nem mesmo se reconhece? 

Temos a tarefa hercúlea de auxiliar o nosso próximo-paciente-semelhante a lentificar este processo vertiginoso de mundo. Nosso trabalho é o de ajustador de velocímetro. É o de cocriar um ouvido em que a dor possa ser gritada. Uma almofada em que a raiva possa ser espancada. Uma fonte em que a lágrima possa ser lavada e escoada. Um ninho em que o afeto possa ser de novo trocado e reconstituído, um band-aid da alma arrancado e uma cicatriz regenerada a ponto de poder ser exibida sem constrangimento. 
A morte é o fim de um tempo e por isso mesmo exige um tempo de muitas horas para poder encará-la, encarar-se e examiná-la em todos os seus detalhes. 

A desorganização que ela traz para o nosso processo de vida, revolucionando o nosso átomo social, nos obriga a uma reconstituição gradativa dos diversos vínculos em que estamos inseridos.

Não é outra a razão porque tudo isso demanda muito tempo. Nunca se sabe o que se vai topar pela frente quando revolvemos o túmulo de nossos mortos. Em vez de começar a discorrer sobre uma lista de procedimentos infalíveis que todos nós esperamos que exista em algum lugar para cuidar bem dos nossos pacientes enlutados, prefiro abrir um diálogo  compartilhado, tendo como princípio estas poucas ideias gerais.

Será que um dia a nossa morte poderá ser tratada apenas como mera prova de alfaiate?
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Os textos deste artigo são capítulos do livro  “Psicodrama: o forro e o avesso” de Sérgio Perazzo (São Paulo, Ed. Ágora, 2010)
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Veja este vídeo com Sérgio Perazzo  

Psicodrama e Qualidade de Vida








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