20 outubro 2014

Loucura

Por 
CARLOS AUGUSTO GALVÃO
Psiquiatra      
São Paulo - SP
carlosafgalvao@terra.com.br







LOUCURA

Loucura é uma palavra que causa temor e fascina ao mesmo tempo. Talvez aí a quantidade imensa de significados que ela gera. Lembro na década de sessenta, quando um amigo, com ar de grande satisfação, dizia sobre o festival de Wodstock após chegar dos EUA: “Foi uma loucura”; no caso a loucura era uma coisa muito boa que ele tinha vivenciado. Vemos outros significados para este termo: Algo muito bagunçado, atitudes impensadas, uma multidão em confusão e por aí vai. As pessoas podem ficar “loucas de amor”, “loucas de raiva”, “loucas de alegria”... Podem “enlouquecer” de felicidade... Enfim, para várias situações do cotidiano, sempre aparece esta palavra.

Tem-se que atentar que, às vezes, a loucura pode ser uma ofensa: “Você está ficando louco”, ou um xingamento: “Seu maluco de uma figa”.

Mas, afinal, o que é a loucura? Todos os órgãos às vezes adoecem e os sintomas dessas doenças estão relacionadas com as funções dos órgãos afetados; então se uma doença acomete a bexiga, por exemplo, os sintomas serão no aparelho urinário: ardor à micção, dor no baixo-ventre (região da bexiga). Quando a afecção afeta o cérebro, veremos os sintomas exatamente no produto funcional dele: O pensamento em suas percepções, afetos, lógica, memórias...

Imagem: Parte da Alegoria do Triunfo de Vênus, de Agnolo Bronzino. Wikimedia Commons

Existem várias doenças do pensamento que não podem ser classificadas como loucura: causa um sofrimento no portador, mas não o deixa louco. A Loucura, cujo sinônimo, um tanto eufemístico, é a psicose, não pode ser confundida com outros estados mentais que provocam sofrimento como as depressões, as euforias, o pânico e a astenia psíquica.

Psicose é um termo genérico que se usa em todas as formas de loucuras como a esquizofrenia, a psicose bipolar e a psicose de Karl Kleist, embora estas doenças tenham características próprias; mas todas têm, em comum, sintomas como delírios e ou alucinações, e principalmente a dissociação da realidade; então o portador vive uma realidade que só existe em sua cabeça. O mais interessante é que às vezes “pega”. Os franceses descreveram há muito um tipo de psicose que atinge duas pessoas ao mesmo tempo: “Folie a deux”, quando dois seres humanos padecem juntos as mesmas alucinações e os mesmos delírios. Lembro-me de um paciente em meu consultório que se achava a nova encarnação de Jesus Cristo, e compareceu com os pais e duas “apóstolas” que acreditavam piamente no enfermo, e chegaram a me desacatar quando disse que se tratava de uma psicose.

Por isso estas doenças causam horror, fascínio e, muitas vezes, discriminação. Discriminação esta que atinge inclusive o psiquiatra. Hoje atuo num grande hospital paulistano que anteriormente não tinha cultura de psiquiatria, em interação com as outras clínicas; mas, no início, quando dizia que fazia psiquiatria, sempre via um risinho meio blasè no interlocutor, até quando conversava com colegas. 

A discriminação maior quem recebe mesmo são os pacientes, talvez reflexo do tempo em que os insanos eram tratados como delinquentes e eram trancados em celas para o resto de suas vidas.

A humanidade ainda busca as causas das doenças mentais, talvez a área mais estudada da medicina e paradoxalmente a que é a menos conhecida, embora detenha perto de 50% de toda a literatura médica. Mas hoje existem tratamentos e a medicina consegue reverter muitos quadros de psicose; em vista disso, esperamos que desapareçam algumas lendas e mitos que provocam medo social, sendo a principal, a que reza que o louco é violento. Existem formas de loucura que, de fato, deixam o portador agressivo e algumas vezes violento, mas são formas raras.

Quem agride, fere e provoca assassinatos é a parte sã da humanidade; não é característica da loucura.

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