29 dezembro 2014

100 anos - Dia da Papoula

Por 
WALTER WHITTON HARRIS
Médico e escritor
São Paulo - SP
wwharris@gmail.com








100 anos - Dia da PAPOULA

Há 100 anos eclodiu a Primeira Guerra Mundial com a invasão austro-húngara da Sérvia em 28 de julho de 1914. Foi um conflito inglório com 10 milhões de soldados e 7 milhões de civis mortos, além de 20 milhões de feridos e mutilados. Para se ter uma noção do número de vítimas, a população total do Brasil em 1914 era de 38 milhões que, na atualidade, representaria a quase totalidade da população do Estado de São Paulo.

Nos países aliados, em especial os de língua inglesa, o “Dia da Papoula” é um dia muito especial, conhecido como “Poppy Day”, e corresponde ao dia 11 de novembro. É o dia em que são realizadas cerimônias em memória dos soldados tombados nas duas Grandes Guerras do século passado, de 1914-1918 e de 1939-1945.

A data de 11 de novembro coincide com o fim da Primeira Guerra Mundial, quando foi assinado o Armistício em Compiègne, na 11ª. hora, do 11º. dia, do 11º. mês de 1918, após ocorrer o colapso do exército alemão em todas as frentes de batalha. Foi a guerra das trincheiras, com um número impressionante de baixas, que nunca deverá ser esquecido: 37 milhões entre mortos e feridos. Esse foi um levantamento feito pelos Ministérios da Guerra dos países participantes. Jamais se saberá precisamente o número de inválidos, cegos e outros incapacitados para a vida devido ao conflito.



No entanto, a Primeira Grande Guerra foi apenas um ensaio para a Segunda, na qual, apenas o número de judeus e de outros grupos minoritários mortos chegou a equivaler aos que morreram na Primeira Guerra. A catástrofe gerada pela Segunda Guerra Mundial ainda se reflete no século XXI. Mesmo assim, a memória de muitos é curta e ameaças de novos conflitos mundiais permanecem. Por isso, é tão importante cultuar, para não olvidar, os tombados naquelas duas grandes guerras.



As batalhas travadas na região de Flandres, uma planície subdividida entre Bélgica, França e Holanda, foram verdadeiras carnificinas. A cidade de Ypres foi palco de conquista, reconquista, destruição quase total, gás venenoso e milhares de óbitos. Em 1915, um oficial-médico canadense, John McCrae, após ver muitos de seus amigos caírem nos campos de papoulas vermelhas das planícies de Flandres, escreveu um poema considerado o mais famoso da Primeira Grande Guerra, e que fez com que a papoula se tornasse o símbolo dos soldados mortos em batalha. Entretanto, ele não foi morto em campo. McCrae faleceu de pneumonia em 1918, com 46 anos de idade. Traduzo livremente seu poema:

Nos campos de Flandres as papoulas se dobram ao vento
Entre as cruzes, fila após fila,
Que marcam nosso lugar; e no céu
Cantando heroicamente, as cotovias voam
Quase não ouvidas entre canhões a toar em terra.

Somos os Mortos. Há poucos dias
Vivíamos, sentíamos a aurora, víamos o pôr do sol,
Amávamos e éramos amados, e agora estamos deitados
Nos campos de Flandres.

Assumam nossa luta com o inimigo:
A vocês, com mãos débeis lançamos
A tocha; para ser de vocês para segurar ao alto.
Se romperem a fé depositada por nós que morremos
Não dormiremos em paz, embora papoulas cresçam
Nos campos de Flandres.


O primeiro “Dia da Papoula” foi celebrado em 1921 e papoulas foram levadas de Flandres para a Inglaterra, decisão influenciada pelo poema de McCrae. Mais tarde, veteranos incapacitados abriram uma fábrica de papoulas artificiais que são vendidas, anualmente, no “Dia da Papoula”. Todos usam a papoula vermelha presa à sua roupa.

Este ano, em homenagem aos mortos na Primeira Grande Guerra, quase um milhão de papoulas de cerâmica foram postas no fosso que circunda a Torre de Londres, produzindo o efeito de “sangue em terra e mar”.

Na Catedral Anglicana de São Paulo, no domingo mais próximo de 11 de novembro, comparecem prelados de vários credos, representantes militares do Brasil e de outros países tradicionalmente aliados, e das Legiões Britânica, Francesa e Belga. São lidos os nomes dos membros da comunidade inglesa em São Paulo que deram suas vidas nas duas guerras mundiais. É uma cerimônia muito emocionante.



A arrecadação com a venda das papoulas artificiais vai para o Fundo Haig, nome dado em homenagem ao Marechal de Campo Sir Douglas Haig, comandante das forças aliadas na frente oeste durante a Primeira Guerra. Este fundo levanta recursos para ajudar mutilados de guerra, geralmente de outras guerras que não as supramencionadas, porque a maioria dos sobreviventes daquelas já se foi.

O Presidente da Legião Britânica finaliza a cerimônia, após ter lido os nomes dos mortos, com as seguintes palavras: “Eles não envelhecerão, como foi deixado para nós envelhecermos. A idade não os cansará, nem os anos os condenarão. No crepúsculo e ao amanhecer, sempre nos lembraremos deles”.

Em novembro de 1918, uma professora americana e humanista, Moina Michael, escreveu um poema-resposta ao de McCrae, intitulado “Manteremos a Fé”, que traduzo também livremente:

Oh! vocês que dormem nos campos de Flandres,
Durmam bem — para se erguer renovados!
Pegamos a tocha que nos jogou
E segurando-o ao alto, manteremos a Fé
Por Todos que morreram.

Também apreciamos as papoulas vermelhas
Que crescem nos campos de lutas gloriosas;
Parecem sinalizar aos céus
Que o sangue de heróis não desvanece
Mas dá cor acentuada
À flor que permeia entre os mortos
Nos campos de Flandres.

Usaremos em honra aos nossos mortos
A tocha e a papoula vermelha.
Não receiem que tenham falecido em vão;
Ensinaremos a lição que nos demonstraram
Nos campos de Flandres.
Nos campos de Flandres onde lutamos.


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Um comentário:

Eliana disse...

Uau!
Linda junção de história e poesia!
Gostei de saber desses dados sobre as guerras, que nunca tinha visto publicados.
Meus agradecimentos ao autor.
Eliana

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