09 março 2015

A força da imagem da literatura ficcionista


Por 
HELIO MOREIRA
Médico e escritor
Goiânia - GO
drhmoreira@gmail.com








A FORÇA DA IMAGEM DA LITERATURA FICCIONISTA

NÃO FAZ MUITO TEMPO,  maio de 2008, estive na companhia de Marília, minha mulher, na Califórnia (USA) e, dentre nossas prioridades, constava uma visita a Monterey, local onde viveu grande parte da sua vida o escritor norte-americano, ganhador do prêmio Nobel de literatura em 1962, John Steinbeck.

Jamais esqueceremos aquela aventura, principalmente as caminhadas que fizemos pelo bairro de Cannery Row, e que culminou com o encontro do busto daquele escritor, nas imediações da Grande restinga, na extremidade da península; Marilia, com muita gentileza, pediu que me postasse ao lado da escultura e registrou aquele momento com fotografias que as conservo no meu acervo com muito carinho. 

Como sabemos, John Steinbeck escreveu grande número de romances, crônicas e contos, porém o livro de maior notoriedade é o intitulado “As Vinhas da Ira” pelo seu conteúdo polêmico, com discussão sobre o desajuste social, em uma época impensável de ser discutida pela sociedade norte-americana, como foi feito pelo autor.

O livro retrata com pincéis cinzentos a situação de uma família de lavradores miseráveis do estado de Oklahoma, que viu como única possível salvação, a emigração para o rico estado da Califórnia; o autor descreve esta epopéia com emoção e realismo inacreditável.

Segundo alguns críticos literários a cena final deste maravilhoso romance é uma das mais famosas e pungentes de toda a literatura norte-americana; resumirei o prelúdio para entenderem o “grand finale”:

“Fugindo de um temporal, a família descobre um celeiro e todos correm para dentro do mesmo para se protegerem; encontraram ali um homem que estava quase morrendo de fome e uma criança que era seu filho, pois estavam sem comida já há vários dias. Uma das moças da família havia perdido o filho, porém continuava com leite no seio” 

Vejam comigo a descrição (resumida) feita por Steinbeck da cena que encerra o livro: 

“A mãe olhou para Rosa de Sharon e disse – Eu sabia que você era capaz de fazê-lo; Rosa disse baixinho para a família, vocês são capazes de sair todos? Todos voltaram para a chuva!



Poema de Steinbeck afixado 
em poste de luz de Cannery Row






Lentamente ela se dirigiu ao canto escuro e quedou-se a olhar o rosto devastado do desconhecido, de olhos arregalados e cheio de temor. Então, vagarosamente deitou-se ao lado dele. O homem abanou vagamente a cabeça de um lado para o outro. Rosa de Sharon afastou o cobertor, deixando o seio a descoberto, colocou-o na sua boca - Tem de ser – disse, aproximando-se mais dele, e puxando-lhe a cabeça para si. Ora vá! Então! Apoiou-lhe a cabeça com a mão, e os seus dedos afagaram-lhe suavemente os cabelos. Ergueu os olhos e deixou-os errar pelo barraco, enquanto os lábios se lhe arqueavam num misterioso sorriso”.

Os escritores que escrevem obra de ficção ficam extasiados, como fiquei, ao perceber a capacidade que tem Steinbeck de “segurar o tema”, mantendo os leitores presos à narrativa até a última linha do texto, com imagem simbólica inacreditável (a mulher pobre desnutrida, socorrendo o homem pobre desnutrido).

No entanto, nem todos os leitores olham os textos somente com olhos de encantamento; alguns procuram lê-los com lentes de aumento, abstraindo-se da necessária disposição para textualizá-lo no maravilhoso mundo do “faz de conta”; procuram nas cenas descritas situações não plausíveis, como aconteceu com a cena que acima transcrevi.

O Prof. John Sutherland, professor de literatura estrangeira e crítica literária no Colégio Universitário de Londres, autor do livro “Curiosities of  Literature” pediu aos seus alunos que analisassem criticamente o citado trecho; para sua surpresa um dos alunos trouxe o seguinte comentário, que transcrevo resumidamente.




Ao lado do Busto de John Steinbeck 
(Cannery Row, Califórnia)





“Uma lactente e sadia mãe de primeiro filho, sem estresse e bem nutrida, secreta cerca de 700 ml de leite por dia; o valor calórico do leite materno é de 70 calorias para cada 100 ml (uma mamada), este valor preenche os requisitos de uma criança recém-nascida. A doadora (Rosa de Sharon) do leite para aquele homem do romance de Steinbeck, era uma mulher mal nutrida, quase entrando no mesmo estado de caquexia que o homem, além de estar em estado de depressão pós-natal (havia sido abandonada pelo marido).

Mesmo considerando que ela conseguiu fornecer os 100 ml de leite para aquele homem que estava morrendo de fome, este alimento equivaleria, em calorias, ao valor contido em uma geléia feita de duas jujubas e, se aceitarmos que ela continuou a amamentá-lo durante todo o dia (sete vezes, na média), forneceria no máximo 14 geléias que haveremos de concordar que não é suficiente para recuperar um homem em caquexia”.

Felizmente a pena adestrada do artista da escrita, ao narrar uma cena com tamanha sensibilidade como fez Steinbeck, não se preocupa em fazer cálculos de calorias, deseja apenas extravasar suas emoções.






Selo emitido nos EUA em 1979












O que diria aquele estudante inglês ao ler esta cena que escrevi no livro “Couto de Magalhães, o último desbravador do Império”?
“Tudo principiou com uma desgramada de uma ferpa que atingiu a veia-artéria do Pipoca, desandou uma sangria desatada, que não parava nem com reza brava. Coloquei picumã, fumo, pó de café com açúcar, esterco de vaca, apertei o local até dar câimbra no dedo e nada, a danada da veia-artéria esguichava longe, sem parar; só aí me lembrei de outro caso igual e que minha sabença deu resultado. Descobri um formigueiro de formiga cabo verde que é, como vancês tudo sabe, umas formigonas pretas e que medem o tamanho da metade do meu dedo minguinho, agarrei umas e coloquei dentro do chapéu, para escapar das ferroadas, e trouxe para perto da perna do Pipoca; agarrei uma formiga pela bundinha e fiz dar uma lacraiada com o ferrão bem na veia-artéria; a hora que senti firmeza que ela estava bem grudada, cortei o corpinho dela e deixei lá o ferrão apertando a veia artéria acudindo a sangueira. Parou”.

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