27 março 2015

O PENSAMENTO - Tributo a Anibal Silveira

Por
CARLOS AUGUSTO GALVÃO
Psiquiatra    
São Paulo - SP
carlosafgalvao@terra.com.br








O PENSAMENTO: Tributo a ANIBAL SILVEIRA

O pensamento é… a inteligência, a criatividade, a capacidade de se adaptar usando a imaginação criativa. O pensamento é a interação do homem com o meio…, enfim o pensamento é sentimento. Eu diria que o pensamento é tudo isso e muito mais. Nada mais difícil do que tentar definir o pensamento.

Os gregos antigos, que parece terem sido feitos por Deus apenas para pensar, não tiveram nem tempo nem tecnologia para provar e aplicar o que pensavam, como o homem moderno que, com máquinas, se locupleta com tecnologia e com ela prova à exaustão postulados deles, pensamentos quase tão antigos quanto a história. Os sofistas, aproveitando da elasticidade do pensamento, criaram a pérola do sofisma, que muitas vezes lançamos mão para nos apaziguar com a realidade; até uma certa raposa o aproveitou ao criar o sofisma das uvas verdes, para seguir sem remorsos o seu caminho. Pois bem…, mesmo na Grécia antiga, numa era de maior culto ao pensamento, não se chegou a defini-lo.

No milênio perdido, iniciado poucos séculos depois do nascimento de Cristo, o pensamento passou a ser proibido, isto é, reprimido profundamente no homem comum pela mesma casta que se achava exclusiva e dona dele. Assim o pensamento virou instrumento de dominação de massas, que tinha estimulado em si um dos mais básicos sentimentos, e que não é exclusivo do homem: o medo, definido por Auguste Comte como “Prudência”, uma função da “Esfera Conativa”em sua teoria positivista (do grego “conatus”, que significa “movimento”).

Não é o caso de tentar resgatar tão controvertida figura histórica. Faltam-se meios e estudos para julgar o positivismo enquanto doutrina, e até entendo suas distorções; aqui mesmo no Brasil há monstrengos que ainda hoje se dizem positivistas e se ufanam de terem sido criados sob tal ideologia, mas a distorceram com temperos autoritários para caber na falsidade de seus propósitos. Um dos mais belos dísticos positivistas foi “adaptado”e é exibido como joia falsa em nosso pendão atual.


Anibal Cipriano Silveira Santos
(1902-1979)

Mas voltemos ao pensamento e procuremos não cair mais em seus labirintos, pois lá, já diziam os gregos, há minotauros malvados.

É necessário que entendamos não ser o pensamento uma exclusividade do homem. Existe o pensamento primitivo dos animais inferiores; no caso do cão, os positivistas relacionam que sua “Esfera Afetiva” possui funções já elevadas como “Apego”, mas lhe falta funções altruísticas, que foi o estímulo antropomórfico para o surgimento do “Córtex 6”, formação anatômica que faz a diferença do corpo do homem em relação aos outros animais. É a sede da consciência, esta sim exclusiva do homem, que no positivismo foi chamada de “Esfera Intelectual”.

“Apego”…, “Esfera Afetiva”…, “Esfera Intelectual”…, afinal de contas o que é isso? É uma pergunta extremamente válida. E eu responderia: O “Penso, logo existo…”, há de ser o produto de um mecanismo biológico agindo com a realidade do meio, e Auguste Comte foi o ser humano que mais próximo chegou a definir este mecanismo biológico. Infelizmente, num de seus inevitáveis labirintos, encontrou poderosos monstros que transformaram seu pensamento em fogueiras. Mas um anjo brasileiro imbuído de coragem e sem dúvida iluminismo divino, resistiu à sanha da neoinquisição, que agora se tornava menos explícita, porém mais perigosa: não incendiava mais cérebros…, incendiava livros.


Artigo do Prof.Carlos da Silva Lacaz sobre Anibal Silveira
 publicado na Folha de São Paulo - 16.09.1979

Aníbal Silveira, esta reserva desconhecida de orgulho brasileiro, foi um psiquiatra que, resgatando o passado da psiquiatria, revolucionou-a, ao estudar e desenvolver para um plano terapêutico a “Teoria das Funções”, transformando-a num importantíssimo instrumento médico. Isto num tempo de saudosismo ígneo clerical e de fortalecimento das duas maiores mentiras do século XX: o comunismo com seu pernicioso simplismo de procurar nivelar o homem, castrando-o em suas funções da ambição, e o delírio freudiano que tenta retirar o efeito do órgão, no caso o pensamento do cérebro, como se pudesse existir o movimento sem a miosina ou a ovulação sem o ovário.

É importante dizer que, conforme avança a tecnologia nos segredos do cérebro, mais se confirmam os estudos e teses de Aníbal Silveira, sobretudo os referentes às fibras cerebrais transemisféricas e interemisféricas.

Aníbal Silveira, este paulista que trabalhou toda sua vida no Hospital Franco da Rocha, morreu no final dos anos 70, mas, mestre que sempre foi, deixou seguidores. Transformou-se num elo médico psiquiátrico com o passado, uma espécie de ponte sobre um tempo de intenso afastamento entre a medicina e a psiquiatria (ora envolta em obscuros lenços analíticos) que ainda hoje existe, situação que mais e mais se torna anacrônica e insustentável. Um dia este grande médico de São Paulo ainda terá o reconhecimento que merece, posto que teve relevância universal na arte médica. *




* do livro
Pensamentos Esparsos
Carlos Augusto Galvão
Rumo Editorial - SP - 2014







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Saiba mais sobre Anibal Silveira:
A Biografia de Anibal Cipriano Silveira Santos poderia ser sintetizada com algumas palavras: Paulista, Positivista, Psiquiatra, Pesquisador, Professor e Pai intelectual de um grande número de jovens psiquiatras. Sua vida esteve na maior parte centrada no seu trabalho no Hospital de Juqueri, no Departamento de Psiquiatria da APM, na Sociedade Rorschach de São Paulo e no Instituto de Psicologia da USP. Leia mais no site PSYCHIATRY ON LINE BRASIL 
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Um comentário:

Adelaide Reys disse...

Senhores Diretores de OPINAS:
Tive a grata satisfação de, pela primeira vez, conhecer essa publicação virtual e me deparar com um trabalho assinado pelo colega e amigo Carlos Galvão, no qual trata de um assunto sumamente importante a respeito de um sentimento tão profundo, qual seja o pensamento, em homenagem ao 'revolucionário' pensador da psiquiatria brasileira, o Dr. Aníbal Silveira, cujos saberes se imortalizou através de seus discípulos transformando-se, no dizer do articulista "...num elo médico psiquiátrico com o passado..."
Sendo o pensamento em uma de suas definições um sentimento, aproveito o momento para parabenizar em dobro o ilustre colega Dr. Carlos Augusto Galvão, exatamente no dia em que comemora mais um ano de existência.
Respeitosamente,
Adelaide Reys/Médica de Saúde Pública/MS(aposentada), residente em Maceió/AL

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