27 março 2015

Sobre o dia internacional da mulher

Por 
JOSÉ ARLINDO GOMES DE SÁ
Médico e escritor
Recife - PE
zearlindogomes@gmail.com








SOBRE O DIA INTERNACIONAL DA MULHER

A mitologia clássica abre janelas novas sobre realidades que a gente vinha banalizando e, por isso mesmo, transforma nossa visão, nos deixa mais alimentados e emocionalmente confortados. Ela nos coloca um mundo que não passou nem vai acabar, porque tem algo de universal e mais que isso: atemporal. A simples menção dos deuses gregos e romanos, orquestrando a sinfonia da vida, já basta para me deixar desperto, pois até hoje eles jamais me decepcionaram. Deliciosas aventuras, as histórias são a espinha dorsal da civilização ocidental. Coleridge, em 1817, falava da literatura quando disse que só aproveita um trabalho literário quem está disposto a suspender a incredulidade e a se deixar levar pela fantasia. A meu ver, falava também da vida.

O Dia Internacional da Mulher lembra uma edificante história grega. O chefe supremo dos deuses, Zeus, provocou uma discussão com Hera, sua esposa, ao afirmar que o prazer da mulher era mais intenso que o do homem. Aí, resolveram chamar Tirésias, a única autoridade confiável no assunto. Então, ele falou: “De dez partes, o homem aproveita apenas uma, enquanto a mulher aproveita todas as dez em seu coração”. Furiosa, Hera, ao ver exposta a sua superioridade feminina, cegou o pobre Tirésias, para ele aprender a não enxergar demais. 

Na sua incomparável sabedoria, os gregos reconheciam o que nós, homens, temos tratado de esconder ao longo da história: perdemos para a mulher e vivemos assombrados com essa superioridade. Freud tinha conhecimento disso quando uma amiga lhe observou que o homem tem medo de mulher. O médico limitou-se a replicar com naturalidade: “E ele tem razão”. A mulher não é má e destrutível: a malícia de Eva, a mulher fatal, a maldade das feiticeiras, tudo não passa de fantasias que o homem criou para esconder seu temor. A mulher assusta é por sua beleza, seus orgasmos, sua facilidade em ler todas aquelas linguagens para as quais somos cegos e surdos e, acima de tudo, sua invejável capacidade de ser. Para compensar fazemos guerras, criamos religiões cujo ser supremo é Ele (e não Ela), descobrimos Américas e elas ali, só olhando. Nós fazendo, e elas sendo. 



A história da humanidade registra: quanto maior foi esse medo, tanto mais a mulher foi oprimida. Já no século XVIII, Johnson admitiu: “A natureza deu tanto poder às mulheres, que elas, muito sabiamente, deu-lhes muito pouco”.

O escultor ateniense Praxíteles fez duas estátuas de mármore representando Afrodite, a deusa do Amor e da Beleza - uma vestida, a outra nua. Os cidadãos de Cós acharam mais apropriado adquirir a imagem vestida, enquanto os de Cnidos não se importaram de ficar com a Afrodite desnuda. Ninguém mais lembra a estátua de Cós; a de Cnidos, no entanto, viria a se tornar a escultura mais famosa da Antiguidade. Por essa época, os habitantes de Crotona resolveram enriquecer os templos de sua cidade com pinturas que atraíssem a atenção. Para executá-las, Zêuxis, o grande pintor da Grécia, resolveu pintar o retrato imaginário de Helena de Troia para encarnar o ideal da beleza feminina. Zeuxis selecionou não uma, mas cinco das mais belas crotonenses, pois nunca poderia encontrar todas as partes que compõem a beleza perfeita numa só pessoa, porque a natureza nunca fez uma só coisa que detivesse a perfeição em tudo. E assim, em Crotona, reinava a felicidade entre os cidadãos, a quem o sábio Zeuxis tinha ensinado que cada uma delas, sem exceção, contribuía com a sua parcela para esta beleza ideal, pois a generosa natureza nunca esqueceu de ninguém nesta partilha, dando a umas aquilo que falta a outras.  
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