01 fevereiro 2016

A conquista do poder e o valor da vida

A CONQUISTA DO PODER E O VALOR DA VIDA



por: Helmut Adolf  Mataré*
Médico e escritor 

Aspirar ao poder ou querer dominar é a extensão do instinto de auto-conservação.  Isto já se observa no comportamento dos cachorros. Eles não permitem que um cachorro estranho ou um gato seja introduzido no círculo da vida que lhes da subsistência. 

Possuir um poder é um fascínio. Um ditador, frequentemente, luta até a morte, para permanecer na situação de mando. Quais são os métodos, para se chegar ao poder? Numa tribo primitiva pode ser a força braçal ou guerreira que permite a ascensão ao poder.

No século passado foram os japoneses que dominavam grande parte da China com força militar. Após a conquista de uma cidade ou região, eles firmavam-se no poder mediante intimação. Com prisões e matanças  arbitrárias  eles mostravam aos  chineses  que  o poder dos ocupantes era ilimitado.

Nos tempos bíblicos, a atividade religiosa ou profética era a fonte do poder. Crenças alheias às do profeta eram severamente proibidas. “Não deixarás viva a bruxa!” Os antigos  astecas e incas tinham uma lei idêntica: pena de morte para a bruxa.

Na Europa medieval, uma coroação era um ato religioso. E, quem não acreditava  em Deus ou Cristo, foi condenado à morte. Assim, a igreja firmava-se no poder. Isto comprova que na idade média o mais alto valor não era a vida, mas a submissão aos representantes da religião e aos dogmas da igreja. 

O preceito da Bíblia que um homem que mata deve perder sua vida, era razoável, porque se aplicava contra os que agiam por motivo torpe. Hoje, ao contrário, estamos no dilema perante os assassinos sadistas ou terroristas, que vivem nas prisões ou que estão em liberdade, porque eles possuem o mais alto valor que nós conhecemos: a vida humana. 

Numa sociedade democrática é a retórica e a capacidade de hipnotizar as massas  com argumentos atraentes ou lisonjeiros, que leva ao poder. Quando proferidas com impecável pronúncia, estas promessas têm força hipnotizante, notadamente, se visam riqueza, segurança ou glória. 

Trezentos anos atrás, alguns fundadores de religiões novas utilizavam-se de um recurso muito primitivo, mas eficiente para ampliar o círculo de crentes: eles prometiam devassidão sexual. Assim fizeram os anabatistas na Alemanha, no início de sua atividade.

Os políticos costumam apelar a um grande número de emoções. Ora são nobres ideais, ora sentimentos de amor ou compaixão, ora indignação contra injustiças, ora o contrário: a postulação de privilégios com os quais, sorrateiramente,  prometem-se grandes lucros a determinada classe ou agremiação partidária. Ora eles advertem um planejado ou iminente terror, contra o qual advogam ser indispensável uma severa disciplina.

Entre outros métodos de chegar ao poder, destaca-se ainda a incitação à histeria ou à  autopiedade. Os comunistas usaram este método. Também nos tempos atuais há pregadores que afirmam que o Cristo crucificado é o símbolo da classe operária torturada e abusada. Assim, eles colocam-se na vanguarda, se, por acaso, eclodir uma revolta dos operários contra as outras classes.

Na revolução francesa, certos advogados denunciavam o rei de ser um acaparador, o que era mentira. Acusavam-no também de ser um proxeneta, o que, em parte, era verdade. O rei Luiz XVI rebatia estas acusações com grande habilidade, durante três anos, mas, sua defesa minguou, quando foram descobertos os documentos que comprovavam que ele estava conspirando com os austríacos contra a França. 

Também Cristóvão Colombo entendia de demagogia. Sabendo que, em breve,  ocorreria um eclipse da lua, ele aproveitou-se da credulidade e religiosidade dos índios, para fazer-lhes crer que ele estivesse familiarizado com o estado de ânimo do Deus da Lua. Ele atribuía a visível diminuição da luminosidade da lua à tristeza do Deus da Lua, por causa da desobediência dos índios a suas ordens de juntar o ouro para ele. 

Um semelhante ardil foi usado pelos evangelistas. Eles deram a entender que Cristo não teria sido condenado à morte pelos romanos, se os judeus de Jerusalém não tivessem insistido na crucificação. Com esta acusação eles criaram uma consciência de culpa na mente do simples povo de Jerusalém, culpa esta que eles, como arautos de Javé, relacionavam ao merecido castigo. Pois, os judeus foram cruelmente expulsos da Palestina, poucos anos depois do martírio e Gólgata.

Hoje estamos assistindo, no Brasil, a uma estranha distorção de valores morais. A propaganda enfoca a necessidade de combater a violência, como se a violência fosse sempre um crime, e como se os crimes insidiosos não representassem nenhum perigo para a sociedade. Esta distorção é evidentemente uma propaganda preventiva para uma grande parte dos políticos que pertencem ao mundo do crime não violento, chamado corrupção. Seria terrível para eles, se o povo brasileiro hoje reagisse contra a corrupção com  violência, de forma semelhante como fez o povo francês mais de duzentos anos atrás. 

Se estes políticos que se confessam ser irrestritamente a favor da vida, fossem honestos, eles cuidariam em primeiro lugar da eliminação dos grandes criminosos que, mesmo nas prisões, continuam a comandar matanças, terror e intoxicações. Se os políticos amassem o povo, eles seguiriam a Bíblia e mandariam verter o sangue daquele que verteu sangue alheio.

Tudo indica que os maometanos perceberam a hipocrisia que tomou conta do mundo ocidental. Eles iludem-nos, mostrando que eles conhecem um número maior de valores que nós. E com muito orgulho lançam mão de vidas humanas e de suicídios, para cultivar seus ideais.

Temos hoje quatro ideologias no Brasil que restringem o livre fluxo do pensamento sobre a vida humana. A primeira provém do poderoso mundo do crime, que deseja proteger os corruptos. Ela invoca o direito à vida para todos, e a proibição de toda violência. Essa é a orientação de nosso governo. 

A segunda doutrina é aquela que combatia antigamente a escravatura. Ela ressalta a igualdade e o direito à autodeterminação dos homens. Essa ideologia abolicionista, se bem que perdeu em importância, ainda está viva no Brasil e distorce a noção do direito penal e cível.

A terceira pedra de toque é o repúdio gerado pelas notícias de matanças em massa, chamadas genocídios, ocorridos na União Soviética, na Alemanha nazista e na China comunista. Nestes países, os políticos determinavam, se uma vida era útil ou não. A reprovação destas matanças é tão emocionante, que paralisa o raciocínio sobre a pena máxima, sobre a mortalidade infantil e sobre a limitação dos nacituros. A maioria das pessoas que se orgulham de condenar solenemente o holocausto e as limpezas étnicas e políticas, perdem de vista o problema crucial de nosso tempo, que é o aumento da humanidade, que se transformou numa praga de carne viva.

A quarta perturbação do pensamento filosófico provém do incrível avanço da medicina, mormente da medicina social e da popularização da medicina individual, que antigamente era uma arte secreta, e hoje é acessível a todo cidadão. Os políticos  aproveitaram este progresso abalroante, para fazer do tratamento médico um direito, que a constituição e a lei chamam impropriamente: o direito à saúde. 

Verdade é que a lei suprema da profissão médica é a conservação da vida humana. Mas esta ética, própria da classe médica, não pode ser estendida aos três poderes que regem um país. Outros profissionais, por exemplo, um fazendeiro, um cientista, um artista, um capitão de belonave, um astronauta, um explorador, um inventor têm ideais totalmente diferentes, e, evidentemente, os celerados e facínoras também não pensam sobre a vida como um médico. 

Se os poderes públicos adotam cega e estupidamente a ética da classe médica, eles cometem um crime avassalador contra a Mãe Terra e, com isso também contra a país ao qual deveriam dedicar-se.

Pois o globo terrestre que tem treze mil quilômetros de diâmetro, possui vida em terra firme somente até a profundidade de noventa e cinco centímetros, exceto nos desertos. Esta tênue e delicada camada viva deveria ser protegida em primeiro lugar.

A vida da Mãe Terra deveria figurar como valor supremo e como critério principal  de toda jurisdição e ordem pública. Somente assim haveria esperança de evitar-se uma catástrofe total.  
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* Helmut Adolf Mataré. Nasceu na Alemanha (Aachen) em 24.12.1917 e faleceu em janeiro de 2016. Estudou medicina (sua especialidade era a radiologia) durante a guerra e participou de diversas campanhas. Foi médico de um batalhão de infantaria na frente contra a União Soviética, época em que ele narrou essa experiência  no livro "A Guerra nos Pântanos". Estudou no Canadá francês, e nos anos 50 veio radicar-se no Brasil, vivendo nas cidades de São Paulo e Bertioga. Foi sócio-fundador da Sobrames-SP (1988), tendo participado na diretoria da entidade em diversas gestões. Autor dos livros "Memórias de um Médico na Segunda Guerra Mundial"  e "A Bíblia tão desconhecida". Foi membro titular da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores.
** Este texto foi escrito em 1999. 

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