23 janeiro 2015

O Brasil dos acasos

Por 
GEOVAH PAULO DA CRUZ
Médico, Biólogo e Escritor
Ribeirão Preto - SP
geovahcruz@uol.com.br








O BRASIL DOS ACASOS

O primeiro grande acaso ocorrido entre nós foi a descoberta do Brasil. Embora haja controvérsias, um fato relevante é que a corrente marítima da África ruma do sul para o norte, costeando o continente africano. Deste modo, embarcações movidas a vento não tinham força suficiente para navegar contra esta corrente, o que as obrigava a buscar uma corrente descendente que as levasse para o sul, para contornar o Cabo da Boa Esperança, situado na África do Sul. Buscando esta corrente, as naus portuguesas acabaram atravessando o Atlântico enviesadamente de norte para sul, vindo a aportar na Bahia. Nesta hipótese, a teoria do acaso tem consistência.

Significativo acaso foi a vinda da corte portuguesa para o Brasil. Jamais uma corte europeia, por mais insignificante que fosse o país, viria se instalar na América, ou em alguma outra colônia, fosse asiática, australiana ou africana. Isto seria impensável. Em decorrência deste acaso, o Brasil deixou de ser colônia e se beneficiou enormemente deste acontecimento. Além de ficar incluído na modernidade da época, igualando-se a países europeus, adquiriu soberania política e territorial, firmando-se como um País único e indivisível, com língua e fronteiras nacionais. 

Outro acaso foi o movimento nacionalista que gerou o ato institucional denominado “Fico”, quando D. Pedro I, brasileiro e carioca da gema, um tanto Macunaíma e de caráter tipicamente brasileiro, decidiu-se, como um herói burlesco, a ficar no Brasil como Príncipe Regente, para logo a seguir proclamar a Independência. O jovem príncipe não ia deixar suas mulatas, o clima tropical, as aventuras rocambolescas e o espírito libertário com que se formara. Tanto assim que talvez tenha morrido de saudade e nostalgia quando se viu obrigado a ir para Portugal reivindicar a coroa usurpada por seu irmão Miguel. Não aguentou o clima e talvez a depressão o tenha ajudado a morrer praticamente jovem. 



Um acaso muito favorável foi a descoberta de ouro e diamante no interior do País. De norte a sul, a cadeia de montanhas da Serra do Mar dividia geograficamente o País em dois: um litorâneo, estreito e insignificante e outro imenso, o planalto, em grande parte pobre em fertilidade da terra e noutra parte, montanhoso e inóspito. Quando o ouro e os diamantes se esgotaram nas minas, o planalto já estava ocupado pelo garimpeiro, agora vertido em pecuarista e mais tarde em agricultor. 

Durante 450 anos de relativa pobreza agrícola, e ultimamente sustentada apenas pela monocultura do café e uma pecuária de baixo rendimento, a população estava sujeita a variações de abastecimento, produto de uma agricultura quase de subsistência e de um criatório ineficaz. Num ano faltava arroz, noutro não havia feijão, ora faltava carne, o leite praticamente desaparecia na entressafra, ora o frango era um produto nobre e raro. 

Aí de novo o acaso nos salvou. Dentro da política antimalthusiana do pós-guerra, prevendo-se que as populações cresceriam mais depressa do que os meios de produção, os norte-americanos iniciaram o que mais tarde veio a se chamar Revolução Verde, investindo maciçamente na ciência e na tecnologia, enquanto a Europa saia da devastação e se reorganizava. Aí veio a grande descoberta quase filosófica: a terra é só um suporte para a planta. Havendo sol e água, o resto se cria. Então a primeira lei agrícola foi estabelecida: as plantas cultivadas, especialmente os grãos, são frágeis demais para suportar um solo ácido, com pH abaixo de 4,5, sendo o ideal algo em torno de 5,5, quando vicejam e produzem abundantemente, em ciclos curtos de insolação, a primavera e o verão. 


Começaram moendo conchas marinhas para alcalinizar o solo e o resultado foi surpreendente. A seguir, experimentaram moer rocha calcária, que hidrolizada se torna hidróxido de cálcio, uma base. Esta base reage com o ácido da terra e o neutraliza. Pronto: estava inventada a agricultura moderna. Era só enriquecê-la com adubos. Neste mesmo tempo surgiu a soja, a leguminosa milagrosa. 

Onde está o acaso? Descobriu-se que a zona do cerrado brasileiro era rica em depósitos calcários, praticamente à flor da terra. Foi só começar a moer pedra calcária, espalhar o pó sobre os campos, e o solo ácido, sáfaro, mísero e inaproveitável do cerrado tornou-se o melhor vaso de cultivo agrícola, porque era vasto, plano, mecanizável e muito bem situado geograficamente. Depois disto, nunca mais passamos fome, desabastecimento, nem falta de comida, que se tornou farta e barata. 


Por causa desta alimentação, de 1950 até hoje a população brasileira teve um ganho enorme de sobrevida. Passou-se dos prováveis 40 a 50 anos, para os atuais 72 anos, e estamos a caminho dos 80 anos de vida média. 

E por estranho acaso, neste mesmo entretempo, Jânio Quadros renunciou e nos livramos dos nossos comunistas, o que nos manteve inseridos no mundo ocidental. Pena que apesar do Muro de Berlim e da Cortina de Ferro eles voltaram e não por acaso estão aí agarrados ao governo feito porcada magra faminta. 

Nessa série de acasos, aconteceu a mudança da capital para o planalto central, numa época absolutamente imprópria, levando-se gente do litoral para o interior pobre e atrasado. Logo a seguir veio a revolução agrícola da soja e do milho e a revolução da pecuária com os capins exóticos, particularmente a braquiária de origem australiana, e desde então nunca mais faltou leite, carne, ovos, e o frango salvou o Plano Real. Hoje somos respeitáveis abastecedores do mundo, com projeções para liderar este mercado. 

Viva o acaso! Não seria por acaso que Deus é brasileiro?

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