09 março 2015

Samuel Pozzi e o Jardim das Serpentes

Por 
GISLENO FEITOSA
Médico e escritor
Terezina - PI
gislenoffeitosa@uol.com.br








SAMUEL POZZI E O JARDIM DAS SERPENTES

“Se o médico não conhecer a História da Medicina, será um autômato”
Samuel Pozzi, 1908.

QUALQUER MÉDICO que tenha estagiado em alguma maternidade conhecerá a pinça de Pozzi, independente de ser ou não um tocoginecologista. Mas, quem teria sido Pozzi? Ele foi um cirurgião e ginecologista francês, interessado em antropologia e neurologia. Uma biografia interessantíssima, como veremos a seguir.

Samuel Jean Pozzi nasceu em Bergerac (Dordogne) no dia 03 de outubro de 1846. Estudou em Pau e depois em Bordeaux. Devido à sua bela aparência, aliada à sua inteligência e instrução, foi apelidado pelos colegas de “Sereia”. 

Iniciou o curso de medicina em Paris, no ano de 1869 e logo se destacou entre os demais alunos, tornando-se um dos favoritos de Paul Broca. Como estudante, foi assistente de anatomia e seus primeiros trabalhos foram direcionados para antropologia e anatomia comparada. Formou-se em 1873 e, em 1875, foi promovido a Agrégé (efetivo) com uma tese sobre histerotomia no tratamento do fibroma uterino. 

Em 1879, Pozzi casou com Teresa Loth-Cazalis, herdeira de um magnata das ferrovias, e teve três filhos: Catherine, Jean e Jacques. Não concordava com sua esposa que exigia a companhia da mãe, morando com eles. Isso desencadeou uma série de conflitos e trouxe desarmonia ao casamento. 



Há relatos de que Pozzi tenha tido uma série de romances extraconjugais. Destaca-se o affair com celebridades, como a cantora de ópera Georgette Leblanc, a atriz Rejane, Geneviève Halévya (viúva do compositor Georges Bizet), Sarah Bernhardt (considerada por muitos como a mais famosa atriz da história do mundo), Madame X (Virginie Amélie Gautreau), esposa de um banqueiro francês) e Emma Sedelmeyer Fischof (filha de um negociante de arte e esposa de um criador de cavalos). Fischof, mulher bonita e culta, se tornou amante de Pozzi, em 1890. Sua esposa se recusou a conceder-lhe o divórcio, mas Fischof permaneceu na companhia do médico durante o resto da vida dele. 

Em 1883 foi nomeado cirurgião do Hospital de Lourcine-Pascal, que mais tarde seria rebatizado de Broca. Pozzi deu aulas teóricas nesse hospital desde 1884, até que ele fosse capaz de estabelecer sua própria cadeira de ginecologia, que logo se tornou o centro de uma escola reconhecida de ginecologia. Em 1889 ele foi o primeiro na França a realizar uma gastro-enterostomia. Em 1885, Pozzi relatou o primeiro caso de doença óssea de Paget, diagnosticado em seu país. Em 1896 foi eleito membro da Academia de Medicina, e em 1897 fundou a Revue de Gynécologie et de Chirurgie Abdominale, com Jayle. Em 1901 foi nomeado o primeiro professor da Cátedra de Ginecologia da Faculdade de Medicina de Paris, criado especialmente para ele. Foi, ainda, senador por Dordogne (1898-1903). 


No início da I Guerra Mundial, o Professor Pozzi, que tinha sido um voluntário em 1870, retornou ao serviço, apesar de sua idade (68 anos). Em 1911 embarcou com destino a América do Sul, à frente de uma expedição científica à Argentina e ao Brasil. Depois de deixar Buenos Aires, ele e sua equipe viajaram para o Rio de Janeiro a fim de conhecer e estudar a famosa coleção herpetológica (cobras venenosas e rãs) brasileira, no Instituto Butantan, em São Paulo. O chamado Jardim das Serpentes era conhecido por estudar veneno de cobras e seu efeito sobre os seres humanos. Pozzi escreveu sobre suas aventuras com o espírito e o entusiasmo de um jovem e com o apoio da Smithsonian Institution (Washington), publicou The garden of serpents, Butantan, Brazil, em 1912.

Pozzi era cirurgião geral, mas a partir do momento da sua nomeação, cada vez mais se dedicou à ginecologia. Ele foi um dos pioneiros desta disciplina na França e, em nome dela, realizou viagens à Inglaterra, Alemanha e Áustria. Visitou muitos serviços médicos fora de seu país e ficou impressionado com o trabalho de Alexis Carrel no Instituto Rockfeller, sobre transplante de órgãos e cultura de tecidos. 

Além da elaboração de novas abordagens técnicas, ele escreveu um livro importante sobre a Ginecologia, Clínica e Operatória, que foi traduzido para cinco línguas estrangeiras. 


Interessado em antiguidades, foi um colecionador de moedas e estatuetas, tendo se tornado presidente da Sociedade de Antropologia, em 1888. 

Pesquisador da História da Medicina sugeriu que a morte da princesa Henrietta, filha do rei Charles I, tenha sido em consequência de uma gravidez ectópica rota. 

Pozzi era respeitado mundialmente e foi uma figura marcante em eventos médicos, tanto pelo porte físico (alto, esbelto e barba bem cuidada) como pela indumentária (roupa branca e gorro preto florentino) ou, ainda, pela sua aguçada inteligência e indômita capacidade de trabalho.

Era um adepto da cirurgia conservadora, rejeitando a histerectomia indiscriminada, e ensinava a conservação dos ovários. Era, também, um amigo das artes e frequentava os salões parisienses, ponto de encontro de todos os estudiosos, políticos e artistas da época.

Foi assassinado em seu consultório no dia 13 de junho de 1918, por um ex-paciente (Maurice Machu), portador de distúrbios mentais, que atirou quatro vezes, atingindo o seu abdômen. Foi submetido a uma laparotomia por seu assistente Dr. Martel, mas, devido a gravidade das lesões, ele não resistiu e faleceu. Seu funeral foi realizado em Paris e, de acordo com seu desejo, foi enterrado vestindo seu uniforme militar, em Bergerac. Logo após, o assassino cometeu suicídio. 

“Eu sinto muito meu caro em estragar uma noite como esta, mas eu tenho uma bala em meu intestino ....”. (Samuel Pozzi para Dr. Thierry de Martel no dia 13 de junho de 1918)

Membros da Paris Medical Faculty (1904), numa caricatura de Adrien Barrère
 (Da esq. para dir): André Chantemesse (1851–1919) Georges Pouchet (1833–1894) Paul Poirier (1853–1907) Paul Georges Dieulafoy (1839–1911) Georges Maurice Debove (1845–1920) Paul Brouardel(1837–1906) Samuel Jean de Pozzi (1846–1918) Paul Jules Tillaux (1834–1904) Georges Hayem (1841–1933) Victor André Cornil (1837–1908) Paul Berger (1845–1908) Jean Casimir Félix Guyon (1831–1920) Pierre-Emile Launois (1856–1914) Adolphe Pinard(1844–1934) Pierre-Constant Budin (1846–1907)
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Gisleno Feitosa é Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões 
e da Academia de Medicina do Piauí.
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Bibliografia:
· Caroline de Costa and Frances Miller, The Diva and Doctor God: Letters from Sarah Bernhardt to Doctor Samuel Pozzi (Xlibris, 2010) 
· Caroline de Costa and Francesca Miller - Portrait of A Ladies’Man: Dr Samuel-Jean Pozzi (History Today March 2006).
· Samuel  Jean de Pozzi no whonamedit.com e na Wikipedia.
· • Dr. Pozzi em cyberbiologie (em francês)
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Um comentário:

Oncologia disse...

obrigado pela historia de meu parente!

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