22 fevereiro 2017

O chumbinho e o beija-flor















Aos 13 anos de idade meu pai fez a loucura de presentear, a mim e ao Ivan Galvão, com duas carabinas de chumbo. A minha era uma Rossi. A dele, não lembro a marca. Como o pai tinha conta no armazém (e no armazém vendiam caixinhas cheias de chumbo) nos tornamos exímios atiradores.  Às custa de centenas de pardais que, naquela época, ensinavam, era uma praga vinda nas caravelas portuguesas. Se adaptaram ao Brasil, tomaram conta das cidades e empurraram os demais passarinhos da terra para o campo. Eram, portanto, uma praga.

Pois diga isso a dois moleques pré-adolescentes, com duas carabinas de chumbo na mão, e imagine você o estrago que eles vão fazer. Matei tanto pardal e fiquei tão craque na espingarda, que certo dia resolvi tirar uma fininha de um beija-flor, que sugava néctar de uma flor de mamoeiro. Mirei um pouco atrás dele e me lembro que pensei: "Sou como um deus. Posso decidir se esse beija flor poderá viver ou morrer".

E apertei o gatilho para o chumbo só tirar uma fininha dele. "O chumbo assobia no ar e dá um susto no passarinho, que fica procurando de onde veio o assobio que passou perto da orelha  dele" - pensei.

Essa era a intenção, já que eu só matava pardais. O que eu não sabia era que -beija-flor voa para trás e no momento do tiro ele se deslocou rápido. O chumbo o atingiu em cheio. O bichinho caiu fulminado, na hora. Pulei o muro (o mamoeiro ficava no quintal do vizinho) e fui buscar o beija-flor. Olhei aquelas peninhas azuis esverdeadas e prateadas. O biquinho longo. A delicadeza do corpinho minúsculo. A perfeição da Natureza nele. Entenda como quiser, acredite se quiser, quase que "ouvi" um pensamento forte, muito forte, soar dentro do meu crânio: "Pois quero ver se você é Deus agora para dar vida novamente à esse bichinho tão delicado que você acaba de matar". 

A dor do arrependimento foi enorme, meu coração parece que se contraiu por dentro. Senti como nunca o ato que fizera. Embrulhei o beija-flor num paninho, fiz uma cova no canteiro de casa e o sepultei ali. Peguei a espingarda, joguei fora a caixinha de chumbo e guardei a arma no fundo do guarda-roupa de meu pai e disse para mim mesmo: "NUNCA MAIS! Você tem o poder de tirar uma vida. Mas não pode fazê-la voltar". 


Meus pais se mudaram, a espingarda sumiu. Nunca mais a vi. A dor desse arrependimento eu nunca mais esqueci. Aí, meses atrás, andei vendo uma carabina para comprar. Puxa, eu tinha sido tão craque com uma dessas. Será que conseguiria acertar os mesmos tiros tão precisos como antigamente? Mas me lembrei do beija-flor. Saí da loja. Nunca mais, pensei de novo. Nunca mais. Mas achei uma ideia muito boa: trocar o chumbinho por uns feijões. Vou pensar nesse caso. Bom... a história é essa e infelizmente é verídica.
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Por: Leonidas Galvão Avellar Pires
Bancário e Jornalista - UBATUBA - SP



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