04 junho 2014

A falta do silêncio e a necessidade de se sentir ouvido

Por 
LIGIA TEREZINHA PEZZUTO
Jornalista     
São Paulo - SP
ligiapezzuto@yahoo.com.br








A FALTA DO SILÊNCIO
E A NECESSIDADE DE 
SE SENTIR OUVIDO

O Serviço de Escuta busca ajudar o próximo, indo além do silêncio e isolamento que as 
pessoas sofrem na idade da tecnologia, suprindo uma necessidade básica do ser humano, a de ser ouvido.

A sociedade de hoje versus o silêncio

Marcada pelo desenvolvimento tecnológico e, com isso, pelo aumento da quantidade de informações, estímulos visuais e sonoros, pela grande velocidade, que encurta distâncias e incrementa o número de atividades exercidas no dia, nossa sociedade atual vive um momento em que o silêncio se faz cada vez mais necessário, a fim de permitir elaborar todos esses estímulos.

Entretanto, atualmente o silêncio incomoda e é visto como ameaça, por isso é preenchido com a fala, com sons e ruídos. É bem presente a ideia de que “um homem em silêncio é um homem sem sentido”(1) . O silêncio, sendo visto como vazio, como falta, impede a reflexão, o pensamento e a contemplação. Desse modo, o homem esvazia-se porque perde o contato consigo, uma vez que não se dá a oportunidade de elaborar todos esses estímulos, assimilá-los e perceber qual o sentido que eles têm para si mesmo.

É necessário dar-se o direito de silenciar para se poder pensar, entrar em contato consigo, observar o mundo à volta e perceber o significado que esses estímulos todos têm para cada um enquanto pessoas únicas, cuja vivência e experiências pessoais levarão a extrair, dos fatos e acontecimentos do dia a dia, percepções, análises, conclusões e até mesmo sentido para a vida.

O silêncio é necessário para o reequilíbrio interior, para conversar consigo mesmo, para sonhar, refletir que caminho se deseja seguir e o que se quer para a própria vida e para si.





Deus fala no silêncio do coração humano. No mais íntimo do coração é que brota a vontade d’Ele. E a vontade mais íntima do coração deve ser também a Sua vontade. O silêncio proporciona esse Encontro, esse diálogo. Possibilita encontrar a resposta para o que Ele quer de cada um de nós no momento e para a nossa própria existência. Serenando o espírito através do silêncio, dá-se espaço ao eu mais profundo e se tem a chance de uma vida mais tranquila porque passamos a ter maior clareza a respeito de quem realmente somos e do que queremos. 

Hoje em dia falta o espaço para que o sentido faça sentido e é no silêncio que isso é possível. Silenciando, um sentido tem lugar, e mais outro e outro mais, levando a reflexões, tomadas de decisões ou de posturas diante dos fatos ou da própria vida.

Uma caminhada, uma sessão de relaxamento, um período de tempo a sós ou o silêncio sagrado nas celebrações litúrgicas podem ser momentos proveitosos em que paramos um pouco e deixamos que os pensamentos se organizem, os sentimentos sejam clareados e se façam as condições adequadas para que decisões sejam tomadas.

Em sua mensagem para o Dia Mundial da Comunicação de 2012(2) , o então Papa Bento XVI coloca que “quando palavra e silêncio se excluem mutuamente, a comunicação deteriora-se, porque provoca um certo aturdimento ou, no caso contrário, cria um clima de indiferença; quando, porém, se integram reciprocamente, a comunicação ganha valor e significado”.


A necessidade de se sentir ouvido

Não é de se estranhar que hoje em dia muitas pessoas tenham a necessidade de sentirem-se ouvidas, uma vez que tantos falam mas poucos ouvem.

Comunicar compreende falar e escutar; nota-se hoje um desequilíbrio aí, em que se privilegia o falar. Como já foi dito anteriormente, a sociedade pós-moderna sente-se incomodada com o silêncio e dá maior valor à fala, apesar de sentir a necessidade de comunicar-se. E, para haver comunicação efetiva, é necessário que uma pessoa silencie para que outra fale. E que cada um fale e silencie também. Comunicar-se é algo inato ao ser humano e todos têm a capacidade de falar, seja verbalmente, seja gestualmente; e todos também têm a capacidade de escutar, quer a linguagem sonora, quer a linguagem gestual ou sensorial. 

É comum perceber, em conversas corriqueiras, que as pessoas de nossa sociedade atual sentem a necessidade de serem ouvidas sem julgamentos, com responsabilidade, compaixão e sigilo. O Serviço de Escuta nasceu a partir dessa necessidade.

A busca do equilíbrio

Ao nos criar, Deus nos fez à sua imagem e semelhança, e tudo o que foi criado tem um equilíbrio original. Precisamos ter cuidado com esse equilíbrio gerado por Ele. Somos participantes da criação e, como agentes, temos uma responsabilidade em relação a ela. Deus mesmo quer a nossa participação, uma vez que ele é Pai, Filho e Espírito Santo e veio ao nosso encontro, deixando uma missão a cada um de nós.

Vemos muitas situações de injustiça e de violência amplamente divulgadas pelos meios de comunicação social. Está ocorrendo a desumanização do ser humano. E isso porque ele está perdendo o contato consigo e com o outro, uma vez que não silencia e consequentemente não reflete, não pensa, não sonha, não contempla. Isso é algo muito sério, mas essa perda pode ser revertida. E uma das formas de revertermos essa situação é escutarmos mais.

Em termos gerais, torna-se necessário ir ao encontro do outro para escutá-lo e sermos escutados, a fim de que o equilíbrio se restabeleça.

Nós nos tornamos mais humanos quando ouvimos as pessoas porque nos sensibilizamos a respeito das alegrias, dificuldades e inquietudes nossas e do outro. Assim voltamos a ser a criatura original de Deus e retornamos ao equilíbrio gerado por Ele. A busca de nosso eu verdadeiro possa por aí.



Para uma escuta efetiva

Há certas atitudes éticas que devem ser levadas em conta num atendimento pelo voluntário do Serviço de Escuta: o sigilo, a discrição, o respeito, a responsabilidade e o encaminhamento. Todas têm razões muito fortes para serem assumidas e colocadas em prática. Estamos lidando com a vida das pessoas, com seu bem-estar.

Todos nós temos nossas particularidades, nossos segredos e desejos que queremos ver respeitados. A pessoa que desabafa conosco não é diferente. Ela deposita em nós esses elementos de sua vida. Assim, temos o dever de respeitá-la e assegurar-lhe o sigilo daquilo que ouvimos. Ao depositar em nós suas inquietações, seus problemas e dificuldades, ela espera que não saiamos a falar por aí o que nos confiou. Devemos ser responsáveis o suficiente para guardarmos conosco o que escutamos a fim de que a pessoa sinta-se resguardada, tal como gostaríamos que fizessem conosco. 

Outra atitude imprescindível para uma boa Escuta é o não julgamento. Jesus nos ensina que não devemos julgar, o que só cabe a Deus fazer. Ora, cada pessoa é um mundo especial e único. Teve vivências particulares e passou por situações distintas das que passamos, além de ter tido uma formação que é diferente da que tivemos. No mínimo não é justo julgá-la por isso. Por vezes ela nem tem consciência do mal que determinada situação em que se encontre esteja fazendo a ela. Delicadamente, é preciso fazê-la perceber isso por si mesma, através de perguntas abertas, como, por exemplo: “Como você se sentiu agindo assim?”.

Segundo o humanista Carl R. Rogers(3), do qual podemos aproveitar os estudos, quando uma pessoa é compreendida e aceita, ela abandona suas falsas defesas e avança construtivamente. Isso significa que, se é compreendida como se sente e é, sem ser analisada ou julgada, pode “desabrochar e crescer”.

O encaminhamento é outro item importante a ser destacado. Devemos reconhecer nossos limites ao ajudar alguém, ao ouvirmos seus desabafos . Algumas vezes a ajuda necessária não está ao nosso alcance por sermos limitados, dependendo do que se nos apresenta. É sinal de humildade reconhecer esses limites e não adentrar nos campos para os quais não estamos habilitados. Assim, se não temos habilitação para psicologia, por exemplo, não devemos entrar nessa área, mas ficarmos no terreno da ajuda humana, uma relação de ajuda que privilegia a “escuta”.

A identidade que se formou do Serviço de Escuta, com base nas experiências adquiridas, permite afirmar que, a despeito da formação do agente que escuta, o Serviço se restringe ao ato de escutar, no que se refere à ajuda humana, isto é, mesmo sendo advogado, por exemplo, o atendimento será como “escutador” e não como profissional da área do Direito. É claro, no entanto, que o bom senso deve imperar. Algumas paróquias criaram grupos de profissionais específicos, organizados fora do Serviço de Escuta, para onde são encaminhadas as pessoas que necessitam de uma ajuda a mais do que aquela que podemos e devemos dar (advogados, psicólogos, assistentes sócias etc.). 



O que se faz é adotar o uso de uma lista de endereços úteis de atendimentos gratuitos em diversas áreas: jurídica, médica, psicológica, psiquiátrica, grupos de autoajuda e assistência social. Dependendo do problema que se apresenta, se houver a necessidade de encaminhar a pessoa a uma ajuda especializada, explica-se claramente isso a ela e se oferece essa possibilidade.

Silenciar é imprescindível, com tantos estímulos visuais, sonoros, olfativos e sensoriais, tantas informações pelos meios tecnológicos cada vez mais avançados e com o aumento de atividades no dia a dia. Ao silenciar, pode-se assimilar o que realmente faz sentido e deixar de lado aquilo que não nos acrescenta nada. Isso é essencial para um equilíbrio interior. Às vezes, em meio a tantas situações em que não há esse equilíbrio, é preciso elaborar os pensamentos e sentimentos através de um desabafo. E é ai que entra o Serviço de Escuta. 
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(1) ORLANDI, E.P.  As formas do silêncio: - no movimento dos sentidos, 4. ed. Campinas: Ed. da Unicamp, 2002, p.37
(2) Site da Região Episcopal Sé. http://regiase.mco2.net/aspx/DetailsNoticia.aspx?idNoticia=2855. Consultado em: 15/05/2012.
(3) ROGERS, C.R. Tornar-se pessoa. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1981, p. 38 
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* Texto extraído do livro Serviço de Escuta - o que é e como implantá-lo (capítulo 2), 1.ed. São Paulo: Ave-Maria, 2013, de autoria de Ligia Terezinha Pezzuto. Todos os direitos reservados. 



A obra tem como base servir de explicação e aplicação de um 
Serviço muito importante nos dias atuais: o da Escuta. Com texto coloquial, que parece um diálogo, 
a autora nos apresenta o que é esse serviço e como implantá-lo nas mais diversas comunidades: 
paróquias, hospitais, capelas etc.

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